4 de maio de 2011

Olhando bem, nem é tão alto

Aline completou 17 anos. Ligou o som e colocou seu cd preferido. No volume máximo. Não precisava ver ou ouvir sua mãe pra saber que ela estava na cozinha, praguejando contra aquele tipo de música. Ainda mais naquela altura. E que, em cinco minutos estaria esmurrando a porta do quarto, gritando para que ela abaixasse aquele maldito rádio. Não é rádio sua burra. É cd. Era o que Aline sempre respondia. Mas hoje não. Hoje ela pensava em não estar ali para dar a mesma resposta malcriada de sempre.
Abriu a janela e sentiu o vento entrar. Nem estava tão forte. Alisando seus cabelos, envolvendo-a. Parecia beijá-la. Olhou as pessoas pequeninas, transitando apressadamente lá embaixo. Não queria mais pensar em nada. Não queria lembrar de ninguém. Queria aqueles últimos minutos sozinha. De tudo. De todos. Só ela. Ela e o vento. Subiu na janela e segurou na barra de alumínio acima de sua cabeça, ficando em pé. Não podia se demorar. Não queria espetáculo. Já havia pensado nesse tipo de coisa há algum tempo. De todas as formas possíveis. E achou que essa seria a que lhe daria uma maior e última emoção. Todas as outras pareceram bobas e rápidas demais. Queria sentir o estômago apertando até o último instante.
Foda é que são só quatorze andares.
Fechou os olhos. Abriu os braços. Jogou o corpo no ar. O vento agora parecia puxá-la pra frente. Pra baixo. Tentou respirar mas não conseguiu. Sentía a pressão do ar em todo seu corpo. Por poucos segundos sentiu a tal sensação de liberdade que tanto procurava.
Até o barulho e o impacto do seu corpo atingindo a calçada dizer que o passeio havia terminado.
Chegou a ouvir cada osso se partindo. Não conseguía mover a cabeça, mas virando os olhos pôde ver seu sangue escorrendo e enchendo a calçada. Não viu nada daquilo de “a vida passar toda diante dos olhos”. Nem mesmo agora, enquanto tentava respirar e não conseguía.
Fechou os olhos e parecia esboçar um sorriso. E um último pensamento: A única merda de morrer é não poder pular de novo…

® Publicado no Blog antigo em 27.02.2004

Cheio do Nada

Por que ele já não sabia quando deixou de gostar dela. O que os ligava ainda? O sexo? A amizade?
“Mas cadê aquele fogo que subia do estômago, as mãos transpirando, a boca seca, tudo aquilo que sentia no início?”
Ele não sabia. E, já não sabia se queria encontrar algo. Sua vida se encotrava num estado muito monótono. Morno.
Ao contrário do sexo com ela, que gemia embaixo dele, lhe arranhava as costas. Do jeito que ele sempre gostou. De repente ele pára. Trava. Sai de dentro e de cima dela e deixa o corpo cair para o lado. Olhos no teto. A garota puxa o lençol e se cobre. Confusa.
- Ei, o quê foi?
- Nada.
- Nada?! Você pára de repente e diz “nada?”
- É. Nada. Não dá mais pra continuar assim. Não sei o que tá acontecendo.
- Porra, e que hora você escolhe pra filosofar, hein? Se chegou nesse ponto, realmente é grave.
- Por isso que parei. Ía ser errado continuar.
- Ah, o bom samarítano. Ótimo. E o quê que vem agora?
- Eu não sei, caramba! Acha que eu escolhi ser assim? “Ah, vou começar a pensar na vida bem na hora em que estiver fodendo.”
- Nossa mas você está atacado mesmo, hein?
Ele levanta e veste a calça. Pega um cigarro, acende e vai até a janela.
- Vou procurar meu grupo.
Ela fica em silêncio por um tempo até que explode:
- Eu sabia! Sabia que vinha alguma merda. Vai voltar praquela vida? Sabe que isso não tem futuro. É isso que você quer?
- E o quê é que dá futuro? Aquela merda de trabalho de escritório? O quê vem depois? Tô cansado disso…
- E eu pensando que você tava feliz…. Que idiota que eu fui.
Ella pula da cama, pega suas roupas que estavam emboladas no chão e vai pro banheiro.
Sai 10 minutos. O rosto denuncia alguém que chorou, em silêncio. Ela o encontra parado no mesmo lugar. Tem um impulso de ir até lá mas desiste. Ele já está fora do seu alcance. Ele olha de lado, por cima do ombro e a vê abrindo a porta e dizer:
- Não me procura nunca mais. Adeus.
E bate a porta com violência. Só porque sabe que isso o irrita profundamente.
Mas hoje não conseguiu.

® Postado no Blog antigo em 30.01.2004.

1 de abril de 2011

Contagem

2011 tá acabando

26 de março de 2011

Luna


Luna, minha cachorra morreu. Uma mestiça de pastor belga que estava com 12 anos. Há uns 4 meses, começou a emagrecer e ter uma tosse de velho um tanto estranha. Nem sabia que cachorro tossia. Dae que a barriga dela começou a inchar, como se estivesse grávida. Mas era só na altura do estômago. A veterinária disse que ela era cardiopata. O coração fica fraco e não tem força pra bombear sangue pro corpo todo, que passa a acumular líquido por causa disso.
Então, nosso último momento foi quando a levei pra rua. Estava comendo e joguei um naco de pão para ela, que abaixou, cheirou e me olhou com os olhos tristes. Achei que era frescura e dei-lhe um tapa na cabeça. E aquele olhar triste agora não sai da minha cabeça, dizendo o quanto sou egoísta. Que ela tinha que comer para me agradar, não porque queria. Estava irritado, estressado, mal-humorado. Tem um monte de desculpa. E nenhuma serve.
Muitas vezes chegava em casa cansado do trampo e da faculdade e levava ela pra rua pra poder andar, já que o quintal de casa é minúsculo e sei que ela precisava disso. Muitas vezes pensei que podia já estar na cama vendo tv ou no banho, olhava pra Luna, barriguda e cansada, farejando e sentindo os odores que eram tão importantes pra ela e pensava “não me custa nada”. Do meu jeito torto, era como me importava com ela.
Dei seus comprimidos noturnos e fui dormir. Ela não amanheceu. Morreu à noite. Não sei se sofreu ou se foi rápido, só que estava dura e fria pela manhã. O olho semi-aberto com o olhar vazio, sem expressão. Um olhar morto.
Infelizmente a única imagem que lembro dela é daquele olhar triste. Quase que com pena do idiota que ela parecia saber que eu muitas vezes sou.

15 de março de 2011

Testo Texto

Comecei algumas aulas do curso de História que me fizeram quase questionar e quase re-pensar a faculdade. Esse professor segue uma linha econômica que sinceramente, tanto método de se abordar/estudar o passado, como social-político-artístico-(econômico).
Dae que após algumas linhas de uns textos que jurava que estariam em minha lápide [/drama], comecei a pegar gosto pela coisa.
Vai saber como é que isso funciona.
Mas ainda acho que podia ter outro tipo de abordagem...

Novas

Isso aqui está mais parado que minha Conta Corrente...

14 de fevereiro de 2011

No Grito


Lembro de quando ía na feira e os feirantes tentavam ganhar a freguesia na lábia, anunciando e valorizando seus produtos. Gostava daquele burburinho de dona-de-casa puxando carrinho e pechinchando o quilo do tomate ou a dúzia de ovos. Gente conversando e rindo.

Nada que se compare ao absurdo de hoje em dia, quando se sai à rua e encontramos um grupo diferente em cada esquina, anunciando produtos diferentes. Anunciando neste caso é sinônimo de GRITANDO.
_ Almoço sem balança com churrasco é cinco e noventa e nove.
_ Água. Água. Água. O que mata a sede é água.
_ Olha a van Santa Cruz direto no ar condicionado. Vai sair agora.
_ Dentista. Orçamento é grátis.
_ Desbroqueio de celular.
_ Ótica. Exame de vista.
Problema é que eles berram bem no meu ouvido. Os da van então, se você estiver distraído te jogam dentro sem a menor cerimônia. Nem interessa pra onde você está indo.

Saudades da feirinha...

6 de fevereiro de 2011

avesso

porque toda noite e eu fico no maior gás de que na manhã seguinte vou acordar às 5 da manhã e vou caminhar/correr/malhar/suar e perder os 10kg de sobre-peso que estou.

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problema é que o despertador toca. eu levanto, vou ao banheiro e a inspiração da noite anterior parece que desce pela descarga e acabo voltando pra cama.