4 de maio de 2011

Fogo

Pintou o cabelo de vermelho.
Bianca acordou numa manhã de domingo com essa intuição. Queria algo diferente. Estava cansada daquela mesmice, daquela rotina. Correu na farmácia o comprou toda a parafernália necessária e ficou lá, trancada por horas no banheiro. Quando saiu, sua mãe deu um grito. Até ela se espantou com o resultado, mas de modo positivo. E passou o dia se admirando no espelho.
Estava fascinada com aquela cor. Vermelho. Forte. Que até doía a vista com o reflexo do sol. Segunda-feira, na escola, novo espanto. Mas agora da turma inteira da sua sala. Caju-vermelho-piranha! Foi a primeira coisa que Felipe, seu melhor amigo, falou. Duas semanas depois, ninguém a reconhecia mais. A menina tímida, quieta, que estava sempre com o pequeno grupo de amigas, agora falava com todos, ou melhor, todos falavam com ela. A garota recatada que passava as noites de sábados de conversa no portão – quando muito, em algum barzinho – agora recebia convites para festas, cinema, encontros. E recebia também todo o tipo de apelidos: “ruivinha, cabelo-de-fogo, natasha, gostosa, piranha, galinha e vagabunda”. Mas os três últimos, só por parte das meninas. Parecia estar tirando o atraso de toda sua vida nos últimos três meses. Estava deslumbrada em como uma simples cor de cabelo podia mudar tanta coisa. Agora escolhia com quem queria namorar, sair, ficar, transar. Antes, só havia namorado dois garotos.
Um dia, encontrou Felipe numa festa e o arrastou até um canto:
- Vem cá, preciso matar uma curiosidade…
E aplicou-lhe um chupão na boca que o deixou tonto, pela surpresa e pela falta de ar.
Refeito do susto, balançou a cabeça, negativamente. E ela lá, fazendo pose de fatal woman. Mas ficou intrigada com a atitude dele.
- Que foi? Não gostou?
- Deixa pra lá…
- Não. Fala.
- Claro que gostei. Eu sou apaixonado por você. Ou era. Mas nunca tive coragem de falar.
- E de onde veio essa coragem súbita, do beijo?
- Foi. Não foi. Sei lá. Não tenho mais nada a perder mesmo. Já perdi. Porque depois que você mudou o cabelo, mudou tudo. Mudou toda. Fica ae, saindo com esse monte de babaca, com garotas que nunca falaram com você. E o problema não é o cabelo, eu até que gostei, mas parece que a tinta entrou na sua cabeça e afetou seu cérebro porque a Bianca que eu conhecia sumiu. E sabe o que é pior, o que vai me matar aqui por dentro? É que eu gostei muito do beijo…
Felipe foi embora, sem olhar pra trás. Bianca voltou pra festa.
. . .
Segunda-feira na escola, Bianca aparece de cabelo preto. Felipe não consegue falar nada. Não consegue pensar em nada. Fica só com aquela cara de paspalho, até que consegue soltar:
- O quê que aconteceu?
- É que eu também gostei do beijo…

® Postado no Blog antigo em 04.05.2004

FinalMente

Lucianna gostava de futebol. Era Flamenguista. Mas não era fanática. Nem Maria-Chuteira. Gostava de ir aos jogos. Voltava rouca. Gritava. Xingava. Não sabia o nome de todos os jogadores, mas gostava de saber ao menos um pouco e ainda tirava onda nas conversas onde só os garotos falavam, quando o assunto era bola.
- Tá bom. Confessa ae que tu só vai pra ficar vendo as pernas dos caras…
- Claro que não. Tá, é claro que eu olho. Aquele monte de perna e bunda, mas se fosse só isso, ficava em casa vendo pela tv, mas quando você ama o time, tem que ir e sentir a emoção.
E realmente, era algo assim que a prendia. Coisa de pele, amor à camisa rubro-negra. E Jaime se aproveitou disso para se aproximar dela e quem sabe, tentar algo mais.
- Oi, gata. Já tem companhia pra assistir à final do mengão domingo?
- Oi Jaime. Estou vendo com uns amigos mas ainda não tem nada certo. E, eu fico tô bolada. Aquela torcida fulêra do vasco vai querer arrumar confusão com certeza. Mas nem sabia que tu era Flamengo…
- Então. Só não sou assim, fanático. Mas gosto de assistir. E camisa, não dá pra ficar usando direto. Tá foda de caro né?
- Pior que tá. Mas e então, você vai?
- Não perco essa final por nada nesse mundo. Só que como você disse, vai ser bem arriscado. Ía ser legal assistir o jogo contigo.
- É. Pode ser. Anota ae meu celular e me liga no sábado.
No sábado, Lucianna aguarda a ligação de Jaime. Último jogo da final. Ele até que era bacaninha. E de repente até rolava algo mais. O telefone toca e ela atende:
- Lucianna, e então, vamos assistir ao jogo?
- Oi Jaime. Cara, eu tô só aguardando a resposta de uma amiga minha, sabe o que é? É que eu já tinha até combinado com ela antes. Mas eu te ligo assim que souber, ok?
- Tudo bem – Ele diz. Vaca! Ele pensa.
Três horas depois, o celular dele toca, era ela.
- Jaime, então, tudo ok. Tá de pé ainda o convite pro jogo?
- Claro que sim. Te pego que horas?
- Hummm passa lá pelas duas. Ok?
- Tudo bem. Um beijo.
Às 14:05 Jaime pára em frente à casa de Lucianna e buzina. Ela aparece na portaria do prédio, vestida em traje de gala. Camisa oficial, boné – fica encantadora de boné, com ar de criança.
- Ué, cadê tua blusa?
- Nem te conto. Um puta acidente pouco antes de sair. Estava lanchando e acabei derramando mostarda. Dae tive que correr com ela pra máquina. Eu sou um desastre…
- É, não se pode estragar o manto sagrado. Espera ae que eu vou lá em cima buscar uma.
- Não! Não precisa.
- Faço questão. Imagina, numa final dessas tem que se estar de acordo.
Ela subiu e desceu de forma super rápida. E assim que entrou no carro, intimou que Jaime trocasse de blusa. Apreveitou pra dar uma espiada no tórax do rapaz.
- Escuta Lucianna, estava pensando se a gente não podia assistir o jogo em outro lugar…
- Opa, opa, opa. Se veio pensando em putaria, pode parar o carro que eu vou descer aqui mesmo!
- Calma Lucianna. Lógico que eu gostaría muita mais de assistir o jogo num lugar mais “só nós dois”.
Mas só estou falando de um barzinho bacana que eu descobri no centro. Vai ter uma galera lá. Além do que, nem tem condições de ir pro estádio. Tá um inferno aquilo lá.
- Ah bom. Err então desculpa. Vamos pra esse barzinho então.
- Depois falam que a gente só pensa em sacanagem. Tá vendo? Quem pensou primeiro foi você…
- Êhh já pedi desculpas né? Então vamos esquecer o assunto e simbora.
Chegando no bar, o clima é animado e descontraído.
Lucianna gosta do lugar. Das pessoas. Da bebida. Da companhia de Jaime.
Final do 1° tempo. Flamego 3 x 0 vasco. Todos cantando “Vice de novo!”. Lucianna bem alegrinha e um pouco “alta” agarra Jaime pela cintura e lhe tasca um beijo longo. O clima esquenta. Embalada pela bebida, pelo placar, ela sugere:
- Jaime, a gente podia ir assistir ao 2° tempo naquele outro lugar…
- Hã hein? – agora ele se faz de desentendido – do quê que você está falando?
- Aquele “só nós dois…”
Ela nem vê Jaime pagando a conta. Rapidamente os dois estão no carro, seguindo acelerado para um motel. Por causa do jogo e do clima, que esquentava cada vez mais. Era uma briga de mãos subindo, descendo, entrando na bermuda, soltando o soutien. Rapidamente os dois se trancam no quarto. Jaime fica alucinado pra tirar logo toda a roupa de Lucianna, mas ela o afasta e manda que ele se concentre no jogo. Ele resolve ir tomar uma banho. Lucianna olha a carteira dele na lateral da cama e fica tentada a dar uma espiada. Mulher é curiosa, mesmo não tendo nada sério, ainda. Mas ela se controla. E grita para que ele volte logo pro quarto, já que só faltam 10 minutos para acabar o jogo. Ele senta na beirada da cama e fica admirando o corpo belo da garota, que está só de calcinha e a blusa do Flamengo.
O jogo termina. Flamengo 5 x 1 vasco. Lucianna não se controla e vai até a janela gritar:
- É CAMPEÃO, POOOORRA!!!
Ela se vira e caminha na direção de Jaime, que boquiaberto, a vê tirando a blusa e lhe diz:
- Vem. Agora vamos comemorar…
E pula em cima do rapaz, sentando no seu colo e trançando as pernas em sua cintura.
Três horas depois, exaustos, ela volta do banho e começa a pegar suas roupas que estão espalhadas pelo quarto. Ele levanta e diz que também vai tomar um banho para irem embora. Recostada na cama, ela agora não resiste e pega a carteira do rapaz.
Cartão de crédito. Talão de cheque. Carteira de identidade. Camisinha. Um pedaço de papel com um monte de telefones anotados. A maioria de mulheres. E…
Lucianna fica pálida com o que encontra. Ela pega o documento e nem se dá conta que deixa a carteira cair no chão. Fica lá estática olhando aquele pedaço de papel colorido plastificado.
Filho da Puta! Carteira de sócio do fluminense!

® Postado no Blog antigo em 14.04.2004

Véspera de Feriado

Há uns três meses não falava com ela.
Não sentia seu cheiro. Sua pele. Seu gosto.
E até ela estranhou quando ouviu a voz dele no celular.
- Oi. Como é que você está?
- Bem, e você?
- Indo… E cheio de saudades. Queria te ver…
- Hummm não sei… Quando?
- Agora!
- Nossa! Mas você não está no trabalho?
Deveria estar. O chefe se despediu ao meio-dia, dizendo que ía almoçar e pegar a estrada. Casa de praia. Filho da puta. Saindo e largando ele lá, sozinho até a hora de fechar o escritório. Mas não dessa vez. Não hoje. Foda-se. Pensou enquanto fechava a porta principal, uma hora depois do chefe ter lhe desejado boa Páscoa. Logo ele, tão certinho… Mas resolveu se permitir aquela escapadela. Teve receio do chefe voltar por um motivo qualquer ou telefonar e ninguém atender. Sacudiu os ombros. É… Foda-se.
- Não. E você, está aonde?
- Em casa.
- Te encontro perto do relógio em uma hora…
- Ei, ei, não se empolga. Eu nem disse se vou…
- Ah pára de bobagem e vem logo. Não quer me ver?
- Tá bom. Até daqui a pouco.
Sabia o que viria a seguir. E ela também. Por isso a certeza de que ela não recusaria…
.
Uma hora e meia depois ela chegou.
Linda. Cheirosa. Deu um estalo em sua boca e disse:
- Vamos?
Táxi. Motel. Beijos. Mãos. Boca. Nossa! Como precisava daquela boca. Parecia que estava num tanque, submerso. E aquela boca era o único jeito dele respirar. De se salvar.
Força. Transpiração. O choque que aquela pele macia provocava nele, parecia ligar algo em seu cérebro. Entrava em transe. O gosto mudava. O calor aumentava. Aquele perfume parecia se espalhar por todo o quarto. Apertava a pele macia dela até marcar.
E com ela acontecia o mesmo. Ela demonstrava com a pressão da chave-de-coxa que aplicava nele, parecendo querer estrangulá-lo. Ou pelas camadas de pele que arrancava de suas costas com as unhas, deixando desenhos simétricos e ardidos. Ou pelo que seus olhos diziam, numa expressão mista e intensa de prazer-alegria-dor-entrega-malícia.
Suor. Explosão. Ele sentia o sangue percorrer todo o corpo numa velocidade espantosa. Quente. Tudo misturado. O gosto, o cheiro, a pele dela, as cores.
Ele sabia quando acontecia com ela ao tocar no seu braço, barriga, boca. Qualquer lugar. Ficava toda sensível. E o simples toque parecia liberar uma descarga elétrica, fazendo-a se contrair, gerando mais corrente. Hoje ela podería até iluminar uma cidade…
.
Varanda da casa dela. Escureceu. Ele a beija, se despedindo. Ela pergunta:
- Vai viajar?
- Acho que não.
- Quando é que a gente se vê?
- Não sei. Eu te ligo. Mas, você também pode me ligar, sabia?
- A gente já conversou sobre isso. Se fosse assim, ía ficar te ligando todo dia. Melhor você me ligar. Só espero que não demore mais três meses…
Ele sai andando. De costas até o portão. Como sempre fazia. E como sempre, jogou-lhe um beijo antes de sumir por trás do muro.

® Postado no Blog antigo em 09.04.2004

Clássico

Domingo. 34 graus. Calor. Multidão. 15:30.
Final de Campeonato. Estádio Mário Filho. O jogo começa às 16:00.
Cadê você, Marianna?. Maurício está agitado. Sozinho. procurando uma garota que ainda não conhecia. Pessoalmente. Só por conversas no msn. E troca de emails. Maluquice se encontrar aqui logo hoje… Ainda mais que ela parece toda retraída com “nada de confundir hein? Vamos só como amigos”. E realmente Marianna era assim, maluquinha. Maurício se assustou quando viu aquela beldade, loira, dez centímetros maior que ele. Olhos azuis.
Já a achava bonita pelas fotos, mas assim, ao vivo, foi um choque.
- Oi, Marianna…
- Maurício!!!
Ela pulou, abraçou e deu um beijão estalado na bochecha já vermelha do rapaz. Conversaram animadamente até se lembrarem que também foram ali para ver o jogo. Quando se aproximavam da entrada, um grupinho com uns cinco rapazes começou a mexer com Marianna.
- Ô princesa, vai ficar com esse amostra grátis ae, é?
- É, vem cá conhecer um flamenguista de verdade…
Maurício fez menção de reagir mas Marianna segurou seu braço.
Não precisava que a defendesse. Ela era forte. Muito.
- Vão à merda seus babacas.
Nisso um dos caras passa por Marianna e ela grita.
- Seu viado. Vai passar a mão na tua mãe.
Ela ainda tenta segurar Maurício, mas quando vê, ele está em cima do sujeito batendo, batendo, batendo. Até que chegam os amigos dele e se forma a confusão.
A vista de Maurício embaça. Vermelho. A mão dói. A cabeça dói. Mas ele não consegue parar de socar. Até sentir uma pancada na nuca. Turvo. A vista embaralha. Ele levanta e começa a socar outro. De repente tudo escurece de vez.
Maurício abre os olhos. Cheiro de éter. Gente chorando. Branco. Roupas brancas. A mão está engessada. Ele não consegue abrir a boca. A língua está enorme lá dentro. Ele passeia com ela e sente gosto de sangue. E a falta de três dentes. Um enfermeiro chega e pergunta se está tudo bem. E pede pra ele se levantar da maca.
- Confusão hein rapaz?! Tirando a mão e dentes quebrados, o olho roxo e umas pancadas que você tomou, até que não está tão ruim. Um dos sujeitos que você bateu chegou bem pior. Melhor até você torcer pra não acontecer nada grave com ele…
O enfermeiro o acompanha até a porta da saída da enfermaria e pede para que ele assine um formulário.
- Pelo menos a tua namorada tae te esperando.
- Err, ela nem é minha namorada.
- Porra e você brigou sem nem tá pegando a mulher? Só tem maluco nesse mundo…
Maurício começa a sentir uma pontada nas costas, a mão também começa a doer. O efeito dos remédios que lhe deram devia estar acabando. Mas de repente foi como se tomasse uma anestesia geral, ao reencontrar Marianna.
Fora o sorriso maravilhoso que ela deu ao vê-lo.
- Você é maluco, sabia?
- Ah é. Esqueci de te falar isso…
- Vem. Vamos lá pra casa. Não tem nem jeito de você ir embora assim.
- Tudo bem. Mas me diz, quanto é que foi o jogo?
- Quatro a um pra gente. Acabamos com a cachorrada…
Maurício tentou gritar mas as costas doeram mais ainda.
- Shiiiiu ei, sossega. Vem, deixa eu cuidar de você…

p/ Anna Carolina

® Postado no Blog antigo em 05.04.2004

O Avesso e O Inverso

Érica era uma garota simples. 19 anos, acabando o segundo grau e sem muitos planos pro futuro. Sua diversão era um barzinho com os amigos no fim de semana e amassos no portão. Até conhecer André. Não chegava a ser um milionário, mas levava uma vida bem confortável. Aquela tarde no shopping. Aquela cruzada de olhar. Os olhos verdes de Érica pareciam ter um imã que prendeu os dele e o puxou até ela. E o jeito dele acariciar as mãos também a prendera. Sentía algo estranho, vendo ele alisar as costas da mão e sentindo como se fosse em sua pele. Suas pernas. Seu pescoço. Seu colo. Sacudiu a cabeça pra sair do transe e quando viu, ele não estava mais lá. Levantou, assustada, e percorreu a área da praça de alimentação com seus olhos à procura do estranho. Quase gritou de susto ao se virar e dar de cara com ele.
– Oi. Desculpe mas eu precisava ver de perto se seus olhos eram de verdade ou se eram lentes…
– Os olhos são originais. Já essa sua cantada…
Pronto. Ultrapassado o primeiro obstáculo, passaram praticamente toda a tarde conversando. Érica nem viu quando as amigas foram embora.
Dois meses depois, ninguém acreditava que os dois ainda estivessem juntos. Ainda mais que estivessem namorando. Sério. A mudança foi brusca. Dos dois lados.
André apareceu um dia na empresa do pai e disse que queria começar a trabalhar lá. Não chegava mais em casa às três da manhã, carregado bêbado por uma ou duas garotas estranhas, que geralmente passavam a noite lá.
Érica mudou o jeito de falar, de vestir. Com o tempo, se distanciou de Fernanda, sua melhor amiga, com quem antes ficava horas no telefone sobre roupas, novelas, garotos. Parecia outra pessoa. Sua vida agora era festas, passeios em Angra. Passou a acreditar que havia nascido pra aquilo, só não sabia, até encontrar André.
Seis meses depois, ele voltam a um restaurante que ela adorou. O clima entre os dois não poderia ser melhor. O jantar estava ótimo. A melhor surpresa foi o vinho, que André fez questão de deixar que ela escolhesse. E achou que não teria hora melhor que aquela:
– Érica… Há oito meses atrás esse olhos me enfeitiçaram, lembra?
Ela ficou encabulada e encolheu a cabeça entre os ombros.
– Você mudou completamente a minha vida.
– E você a minha.
– Por 28 anos eu imaginei… nunca me vi um cara sério, chegando em casa depois do trabalho, com alguém me esperando… construir uma família – André retira a pequena caixa de veludo do bolso e leva até bem próximo dela, abrindo-a – E você com esse jeito simples, me ensinou, me fez querer isso. Eu quero pedir que se case comigo!

. . .

Érica repousou o copo sobre a mesa. Juntou as mãos, entrelaçando os dedos e apoiou o queixo. Graciosamente.
– Desculpa André, mas eu não posso aceitar.
Ele franzi a testa, aturdido, perdido. Nunca imaginou uma resposta assim. Não dela. Fecha a caixa e se endireita na cadeira.
– Mas por quê?
– Porque você também mudou a minha vida. Me mostrou coisas que eu nem imaginava existissem. Festas, lugares, pessoas. Tem toda uma vida lá fora, e você quer se prender? Quer me prender? Imagina, filhos, casa… Eu gosto muito de você, mas tenho que aproveitar o agora…
– Você acha que eu vou sentar e esperar você?
– Não tenho como e nem posso pedir isso. Infelizmente, não vejo como continuar com tudo desse jeito.
André chama o maitre e lhe entrega o cartão, pedindo para fechar logo a conta.
– Mas acho que estamos terminando e fico até curioso pra saber como você vai conseguir continuar curtindo tudo isso.
– Não se preocupe.
Do céu ao chão. Ele se levantou, retirou algumas notas da carteira e colocou sobre a mesa.
– Pro táxi. Adeus.
Dois meses depois, após toda a família ficar assustada, achando até que ele faría alguma besteira por causa daquela decepção, André dava sinais de recuperação. Mas antes, cumpriu todo o percurso que os abandonados e traídos fazem: bebedeira – mas agora voltava pra casa sozinho. Sua mãe até sentiu falta das “vadias” – e brigas. Não sentia interesse em nenhuma outra garota. Ajudou bastante o fato de Érica ter saído de casa. Simplesmente sumiu. Ninguém da casa dava qualquer tipo de informação de seu paradeiro a André. E ele rodou a cidade por vários dias. Por várias noites.
Dae que como em toda estória, a vida seguiu seu curso e tudo foi se ajeitando. Quase tudo. André estava em São Paulo numa sexta-feira, pra fechar um negócio. Aproveitou pra passar o fim de semana. No sábado à tarde, ligou para um amigo que não vía há tempos. Marcaram uma balada para a noite.
Se encontraram num barzinho e seguiram pra festa. Lançamento de livro, como é que eu me meti nisso? Chegando ao local, os dois circulam, folheiam o livro, mas André não está nem um pouco interessado em leitura. Até que seu amigo fala:
– André, é o seguinte, isso aqui tá horrível. Vamos tentar descolar alguma?
– Quê fraco?! Olha aquele grupo ali. Não vi defeito em nenhuma das quatro.
– Mas era isso que eu ía te falar! Não estou nada a fim de ficar caçando mulher aqui, ali. Me garanto e levo logo uma ou duas comigo.
– Tá bom. Em que parte da história você virou o Don Juan?
– Nada. São garotas de programa. E que programa meu amigo.
– Não sei não. Pagar pra transar…
– Mas é isso. Melhor do que ficar que nem maluco caçando. Quando se consegue alguma coisa e a gente chega ao que interessa, elas vêm com estórinha de Ai ae não. Nanão, anal é muito porco. Nojento. Chupar você? Nunquinha, tenho o maior nojo. Então amigo, com essas dae é garantido. Não tem frescura. É o seguinte, ví que você ficou de olho na ruivinha. Eu ía até pegar ela de novo, mas tenho que fazer as honras da casa. Posso chamá-la?
– Só pela bunda, tanto faz. Nem vi que cara ela tem…
– Pode acreditar, além de linda, ela é do tipo que “gosta do que faz”. Adriani, chega aqui um minuto.
André fica sem ar, o chão parece se abrir sob seus pés, como há dois meses atrás. Adriani vem em sua direção, linda, cabelo vermelho, um vestido justo mostrando todas as suas curvas. Ela se aproxima do amigo de André e lhe dá um beijo estalado na boca.
– Marcel, há quanto tempo. E veja só hein André, você por aqui…
– Érica… O quê… Como… Adriani??
– Então vocês dois já se conhecem? Caramba. Seguinte – ele se aproxima do ouvido de André e sussurra – Se você já conhece, sabe que o serviço é completo! Então, boa noite pra vocês que eu vou correr atrás do prejuízo.
Ele abraça uma morena 10 centímetros maior que ele e sai.
André chega na calçada e espera Érica. Quando ela chega os dois vão até o carro. Tanta coisa pra falar, perguntar, saber, ouvir a voz dela. Quando chegam no carro, ela espera André abrir a porta e entra. Ele dá a volta e entra.
– Porra, você está usando o nome da minha mãe pra fazer papel de puta…
– Ah desculpa, mas é que eu achei muito bonitinho. Vamos logo embora. Não sei se o Marcel te falou, mas são trezentas pratas, hein?!
– Porra e você ainda vai cobrar trezentos reais pra transar comigo?
– Está bem! Ok! Em consideração ao passado, vou te dar um desconto…

® Postado no Blog antigo em 13.03.2004

Putaria Erótica

Mordeu o lábio inferior e pressionou a cabeça dele. Pra baixo. Com as duas mãos. Pra dentro.
Difícil… Respirar… Pensar… A onda percorreu todo seu corpo e então ela relaxou. Até esqueceu dele lá embaixo, coitado, se empenhando tanto. Agora que não era mais necessário. Puxou-o pelo queixo. Pra cima. Pro meio. Pra dentro. E começa todo o balé que agora ela já não sabia mais se ainda queria… Mas ae, ía ser sacanagem com ele, tadinho…, ela pensa enquanto prende a cintura dele com as pernas e começa a arranhar suas costas. E, não queria mesmo continuar com aquilo. Sentiu uma necessidade estranha e urgente de ficar sozinha. Rápido. Depressa. Começou a fazer tudo que havia aprendido para “animá-lo” mais e assim terminar logo. E não precisou nem de 10 segundos. Ele se acalmou e caiu para o lado. Ela diz:
- Tenho que ir embora…
- Mas agora? Quê foi, fiz alguma besteira?
- Não. Nada. Não foi nada. Não é nada com você. É comigo…
Ele levanta e vai pro banheiro, abre o chuveiro e deixa a água cair forte em sua cabeça. Quando sai, vê o quarto vazio. E sente também seu coração se esvaziando. Todo o sentimento que ele nutria pela garota parece evaporar quando ele constata:
Vaca filha duma puta, levou minha jaqueta!

® Postado no Blog antigo em 05.03.2004

Olhando bem, nem é tão alto

Aline completou 17 anos. Ligou o som e colocou seu cd preferido. No volume máximo. Não precisava ver ou ouvir sua mãe pra saber que ela estava na cozinha, praguejando contra aquele tipo de música. Ainda mais naquela altura. E que, em cinco minutos estaria esmurrando a porta do quarto, gritando para que ela abaixasse aquele maldito rádio. Não é rádio sua burra. É cd. Era o que Aline sempre respondia. Mas hoje não. Hoje ela pensava em não estar ali para dar a mesma resposta malcriada de sempre.
Abriu a janela e sentiu o vento entrar. Nem estava tão forte. Alisando seus cabelos, envolvendo-a. Parecia beijá-la. Olhou as pessoas pequeninas, transitando apressadamente lá embaixo. Não queria mais pensar em nada. Não queria lembrar de ninguém. Queria aqueles últimos minutos sozinha. De tudo. De todos. Só ela. Ela e o vento. Subiu na janela e segurou na barra de alumínio acima de sua cabeça, ficando em pé. Não podia se demorar. Não queria espetáculo. Já havia pensado nesse tipo de coisa há algum tempo. De todas as formas possíveis. E achou que essa seria a que lhe daria uma maior e última emoção. Todas as outras pareceram bobas e rápidas demais. Queria sentir o estômago apertando até o último instante.
Foda é que são só quatorze andares.
Fechou os olhos. Abriu os braços. Jogou o corpo no ar. O vento agora parecia puxá-la pra frente. Pra baixo. Tentou respirar mas não conseguiu. Sentía a pressão do ar em todo seu corpo. Por poucos segundos sentiu a tal sensação de liberdade que tanto procurava.
Até o barulho e o impacto do seu corpo atingindo a calçada dizer que o passeio havia terminado.
Chegou a ouvir cada osso se partindo. Não conseguía mover a cabeça, mas virando os olhos pôde ver seu sangue escorrendo e enchendo a calçada. Não viu nada daquilo de “a vida passar toda diante dos olhos”. Nem mesmo agora, enquanto tentava respirar e não conseguía.
Fechou os olhos e parecia esboçar um sorriso. E um último pensamento: A única merda de morrer é não poder pular de novo…

® Publicado no Blog antigo em 27.02.2004

Cheio do Nada

Por que ele já não sabia quando deixou de gostar dela. O que os ligava ainda? O sexo? A amizade?
“Mas cadê aquele fogo que subia do estômago, as mãos transpirando, a boca seca, tudo aquilo que sentia no início?”
Ele não sabia. E, já não sabia se queria encontrar algo. Sua vida se encotrava num estado muito monótono. Morno.
Ao contrário do sexo com ela, que gemia embaixo dele, lhe arranhava as costas. Do jeito que ele sempre gostou. De repente ele pára. Trava. Sai de dentro e de cima dela e deixa o corpo cair para o lado. Olhos no teto. A garota puxa o lençol e se cobre. Confusa.
- Ei, o quê foi?
- Nada.
- Nada?! Você pára de repente e diz “nada?”
- É. Nada. Não dá mais pra continuar assim. Não sei o que tá acontecendo.
- Porra, e que hora você escolhe pra filosofar, hein? Se chegou nesse ponto, realmente é grave.
- Por isso que parei. Ía ser errado continuar.
- Ah, o bom samarítano. Ótimo. E o quê que vem agora?
- Eu não sei, caramba! Acha que eu escolhi ser assim? “Ah, vou começar a pensar na vida bem na hora em que estiver fodendo.”
- Nossa mas você está atacado mesmo, hein?
Ele levanta e veste a calça. Pega um cigarro, acende e vai até a janela.
- Vou procurar meu grupo.
Ela fica em silêncio por um tempo até que explode:
- Eu sabia! Sabia que vinha alguma merda. Vai voltar praquela vida? Sabe que isso não tem futuro. É isso que você quer?
- E o quê é que dá futuro? Aquela merda de trabalho de escritório? O quê vem depois? Tô cansado disso…
- E eu pensando que você tava feliz…. Que idiota que eu fui.
Ella pula da cama, pega suas roupas que estavam emboladas no chão e vai pro banheiro.
Sai 10 minutos. O rosto denuncia alguém que chorou, em silêncio. Ela o encontra parado no mesmo lugar. Tem um impulso de ir até lá mas desiste. Ele já está fora do seu alcance. Ele olha de lado, por cima do ombro e a vê abrindo a porta e dizer:
- Não me procura nunca mais. Adeus.
E bate a porta com violência. Só porque sabe que isso o irrita profundamente.
Mas hoje não conseguiu.

® Postado no Blog antigo em 30.01.2004.